Infecção urinária que se repete no homem é indicação de investigação, não de mais um ciclo de antibiótico. A anatomia masculina torna a infecção menos frequente, então a repetição sugere que existe um fator permitindo: esvaziamento incompleto da bexiga, aumento da próstata, prostatite crônica funcionando como reservatório, cálculo, estreitamento da uretra ou descontrole do diabetes. A investigação começa por urocultura colhida antes de iniciar antibiótico e por ultrassom com medida do resíduo pós-miccional.
O roteiro se repete com uma constância desanimadora. Ardência para urinar, urgência, idas ao banheiro a cada meia hora. Uma consulta rápida, um antibiótico, melhora em três dias. Dois meses depois, tudo de novo. Na terceira ou quarta vez, a pessoa já sabe o nome do remédio e pula a consulta. É exatamente aí que a investigação para de acontecer.
Vale dizer o que muda o raciocínio: na mulher, a infecção urinária é frequente por razões anatômicas, e um episódio isolado costuma ser tratado sem grande investigação. No homem, a uretra é longa e a infecção é bem menos comum. Por isso um episódio já merece atenção, e a repetição merece explicação. Repetição, aqui, costuma significar dois episódios em seis meses ou três em um ano, confirmados por exame.
O que a investigação procura
A pergunta que organiza a consulta não é qual bactéria, e sim o que está permitindo que ela se instale de novo. As respostas mais comuns caem em dois grupos: urina que não sai por completo, e algum lugar onde a bactéria fica guardada entre os episódios.
- Esvaziamento incompleto da bexiga: urina que fica parada depois de urinar é meio de cultura. É medida por ultrassom logo após a micção.
- Aumento benigno da próstata: obstrui a saída, dificulta o esvaziamento e aparece com frequência a partir dos 50 anos.
- Prostatite crônica bacteriana: a próstata funciona como reservatório, e tratamentos curtos não alcançam bem esse tecido. É uma das razões clássicas de recidiva logo após o fim do antibiótico.
- Cálculo urinário: alguns cálculos abrigam bactérias e mantêm a infecção viva por baixo do tratamento.
- Estreitamento da uretra: reduz o fluxo e prejudica o esvaziamento, às vezes anos depois de sondagem ou trauma.
- Diabetes descontrolado: aumenta a suscetibilidade e atrapalha a resposta ao tratamento.
- Cateter ou sondagem prévia, fimose e prática sexual desprotegida: fatores que entram na história e mudam a conduta.
A ideia não é que exista sempre uma doença grave escondida. Na maior parte das vezes o achado é tratável e mais simples do que a expectativa. O problema de não investigar é outro: sem identificar o fator, o próximo antibiótico só compra tempo.
A urocultura vem antes do antibiótico
Esse é o ponto prático mais importante de todo o texto. A urocultura com antibiograma identifica a bactéria e mostra a quais antibióticos ela responde. Colhida depois do início do tratamento, ela frequentemente vem negativa mesmo com infecção ativa, e a informação se perde.
Repetir por conta própria a receita antiga tem dois custos. O primeiro é apagar o exame, como acima. O segundo é a resistência bacteriana: ciclos sucessivos do mesmo antibiótico, sem confirmação, selecionam bactérias mais difíceis de tratar, e o episódio seguinte fica pior do que o anterior. Quando a queixa se repete, o caminho é colher antes e tratar depois, ou tratar de forma orientada com a coleta já feita.
- Exame de urina e urocultura com antibiograma: a base, colhidos antes de iniciar antibiótico.
- Ultrassom do aparelho urinário com resíduo pós-miccional: avalia rins, bexiga, próstata e o quanto de urina fica para trás.
- Exames de sangue: função renal e glicemia ou hemoglobina glicada, conforme o caso.
- Fluxometria: mede o jato urinário quando há suspeita de obstrução.
- Cistoscopia ou tomografia: reservadas para situações específicas, não para todo mundo.
Uma observação que evita confusão: o PSA sobe na vigência de infecção e de prostatite, e uma dosagem colhida nesse momento pode assustar sem significar o que parece. Quando o PSA faz parte da avaliação, o momento da coleta é escolhido de propósito, em geral depois de resolvido o quadro agudo.
Quando não dá para esperar consulta
Febre alta com calafrio, dor lombar intensa, queda do estado geral, vômitos ou incapacidade de urinar tiram o caso da agenda eletiva. Esses sinais sugerem que a infecção passou da bexiga, para o rim ou para a próstata, e o caminho é pronto atendimento no mesmo dia. Dor e inchaço no testículo junto com sintomas urinários também pedem avaliação sem adiar.
Fora dessas situações, o que mais ajuda é chegar à consulta com o histórico organizado: quantos episódios, em que datas, quais antibióticos foram usados, quais uroculturas existem e o que elas mostraram. Esse conjunto costuma apontar o caminho da investigação antes mesmo do primeiro exame novo. Em Belo Horizonte e região, essa avaliação pode ser conduzida no consultório da Savassi, e vale levar até os exames que pareceram sem importância na época.
Este texto é informativo e não substitui consulta médica. Antibiótico não deve ser iniciado, repetido ou interrompido sem avaliação individual.
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